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Como fazer bom uso e aproveitar ao máximo os serviços de intérpretes

Mônica Pires      segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

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Você vai palestrar em um congresso. Passou meses preparando sua palestra e está pronto para entregar uma mensagem bem elaborada à sua audiência. Só tem um problema - metade da plateia não fala sua língua.

Ainda bem que há intérpretes no evento! Mas, como garantir que a mensagem do intérprete equivale à mensagem que você entregou, do mesmo jeito que você a concebeu?

Sejamos honestos: é provável que você jamais tenha pensado nisso. Não tem problema. Você não está sozinho. O serviço de intérprete é meio que como um rolo de papel higiênico. As pessoas não pensam nisso até precisarem de um!

As pessoas simplesmente não pensam em tradução ou nos profissionais que realizam esse trabalho. Com a interpretação simultânea, não é diferente. Além disso, a maioria das pessoas nem têm a menor noção da diferença entre o tradutor e o intérprete. Muitos intérpretes que eu conheço confirmam que sentem que há falta de compreensão relacionada ao papel que eles desempenham.

Então, vamos investigar isso mais a fundo. Como representante dessa classe invisível, porém, indispensável, proponho discutirmos sete aspectos que podem mudar sua perspectiva e que merecem sua atenção (especialmente se você é um palestrante, um gestor do setor de eventos ou um contratante) para que você e sua palestra não se percam no escuro de uma cabine de interpretação. Vamos lá!

Lembre-se:

1. É um trabalho de equipe

A primeira coisa que deve que saber quando for interpretado é que levar sua mensagem adiante será um trabalho de equipe envolvendo você e os intérpretes.

Sim, eles são profissionais treinados que conseguem lidar com bastante coisa, mas não são dicionários ambulantes e nem máquinas de traduzir. São humanos, com limitações humanas. Então, se quer que sua mensagem chegue às pessoas no recinto que não falam sua língua, você deve ter a entender quais são essas limitações para, assim, tentar dirimi-las da melhor maneira possível. 

E isso nos leva ao segundo tópico: disponibilização antecipada de material.

 

2. Preparo é a chave do sucesso

A dificuldade da interpretação vai muito além da mera habilidade linguística e grande parte do trabalho de um intérprete acontece bem antes do evento acontecer.

Os intérpretes trabalham com temas diversos o tempo todo. Podem interpretar em um congresso para cardiologistas num dia e no chão de fábrica no outro. Em ambos os trabalhos, precisam ter à mão a terminologia correta e, além disso, compreender e transmitir com competência o que está sendo discutido.

Ter a habilidade para fazer tudo isso requer preparo profundo, personalizado para todo e qualquer evento.

 

No caso da sua palestra, especificamente, é aconselhado que você disponibilize aos intérpretes o material apropriado com antecedência. Afinal de contas, quanto mais preparados os intérpretes estiverem com relação ao seu tópico, melhor poderão transmitir sua mensagem à sua plateia. Então, quando for palestrar em um evento, planeje-se e disponibilize material de apoio aos intérpretes antecipadamente.

Quanto melhor for o desempenho dos intérpretes, melhor você será visto por seu público e melhor será sua palestra sob o ponto de vista do ouvinte. O intérprete é seu reflexo, quase seu alter ego. Se você for bem, ele irá bem também (e vice-versa).

 

3. Entrega: devagar se vai ao longe

O que faz uma palestra ser boa? Um bom palestrante.

Uma palestra bem articulada é importante para todos os tipos de evento. Contudo, especialmente nos casos em que será interpretado(a), você deve ajustar a sua entrega para torná-la mais adequada à situação. Há aqui dois aspectos a serem considerados.

  • Primeiro: Preste atenção na sua velocidade. Palestrar falando rápido demais confunde sua audiência e falar em público não se trata de uma competição entre você e o cronômetro (porque a ideia é que você saiba controlar seu tempo, que você tenha treinado sua entrega e tal). Falar rápido pode ser um ato inconsciente e isso pode acontecer se você ficar nervoso, daí seu corpo sai acelerando não só a fala, mas também os gestos e as reações. Quando os palestrantes aceleram a fala, os intérpretes são treinados para falarem mais devagar. A técnica serve para que eles possam manter o foco e prestar atenção em tudo e entregar somente o que for essencial, fazendo com que fique mais fácil para a plateia seguir acompanhando a mensagem principal. Embora seja uma ótima técnica, isso também quer dizer que muitos detalhes serão propositalmente deixados de lado, quase que por uma questão de sobrevivência.

Nossa dica: Treine, treine, treine! Saber sua fala de cabo a rabo, no avesso e no direito... treinar em voz alta. Aí, mesmo que fique muito nervoso(a) na hora, sua velocidade não será alterada.

  • Segundo: Preste atenção ao seu sotaque. Todos nós temos um sotaquezinho e os linguistas adoram esse jeito tão peculiar e regional de cada um se expressar! Sotaques revelam muito sobre as pessoas... Mas, se seu sotaque for muito diferente da média de como sua língua é falada, é uma boa ideia suavizá-lo um pouco na hora de falar a um público. Se seu sotaque for muito carregado, pode ser que suavizá-lo não seja uma tarefa das mais fáceis. A maioria de nós consegue alternar entre uma versão mais moderada e uma mais extrema de nosso próprio sotaque. Conseguimos até imitar o sotaque dos outros, tamanha nossa versatilidade!

Os intérpretes são treinados para trabalhar com sotaque diversos, mas a verdade é que se eles não conseguem entender o que você fala por conta de seu sotaque peculiar, sua mensagem será perdida no caminho. Então, considere com carinho esses dois pontos quando estiver palestrando.

4. Piadas e citações

Abrir sua palestra com uma frase famosa e de efeito ou quebrar o gelo com uma piada são recursos tentadores, eu sei. Mas para os intérpretes, essas coisas podem virar um pesadelo! Por quê?

  • Piadas normalmente têm elementos culturais ou linguísticos ou, no pior dos cenários, os dois. Isso quer dizer que na maioria das vezes, a tradução da piada não faz sentido em outra língua. Se é esse o caso, o intérprete vai deixar a piada de fora, e o resultado será metade da plateia rindo e a outra metade com cara de quem se perdeu na trilha. Até conseguir pensar se há alguma piada equivalente, ou um trocadilho parecido no idioma da interpretação, o intérprete pode perder parte valiosa do discurso entregue depois da piada. Eu mesma já escutei intérpretes dizendo ao microfone (mas ainda não precisei dizer), “o palestrante contou uma piada engraçada sem equivalente em português, então pedimos que a plateia ria”. É um desastre, mas acontece, sim.
  • No caso de citações, é bem provável que você também ache que há certas frases famosas que possam ser utilizadas porque “todo mundo as conhece”. No entanto, no contexto dos intérpretes, eles provavelmente não vão conseguir produzir a frase de modo perfeito em outro idioma, sendo famosa ou não. Provavelmente deixarão ela de fora. Isso te deixa com duas opções: Ou você entrega a frase para o intérprete com alguma antecedência para que possam ver se já há alguma tradução consagrada no idioma para o qual estão traduzindo (é frase famosa, afinal), ou você desiste de colocar essa frase na sua palestra.

Como disse Somerset Maugham, “A capacidade de citar é um substituto benéfico para a inteligência” (uma frase que eu traduzo diferente: “A capacidade de citar é um substituto útil para a inteligência”. Coloquei aqui a tradução mais conhecida e já consagrada para exemplificar como as coisas funcionam na hora, na cabine. Não podemos alterar uma tradução famosa já feita e colocar o que a gente quer na hora, entende?).

Nossa recomendação: Seja inteligente e astuto e surpreenda sua audiência do seu jeito e com conteúdo autoral.

 

5. Nomes e números

É claro que sua apresentação terá nomes e números... Tudo bem! Os intérpretes são treinados para lidar com isso. Mas acertar nomes e números pode ser difícil, mesmo na nossa própria língua. Aqui vão algumas dicas:

  • Inclua somente nomes e números indispensáveis. Não exagere. Pense no que de fato contribuirá com sua palestra.
  • Disponibilize nomes e números aos intérpretes. Se eles puderem se preparar e souberem quais nomes e números serão citados, a entrega será mais tranquila.
  • Se for citar nomes e números, não fale tudo correndo. Lembre-se que há um intérprete replicando sua fala em outro idioma, então, vá com calma. Assim, vai dar tempo do intérprete repetir o que você disse sem deixar nada para trás.

 

6. Menos é mais

Quando estiver palestrando em um congresso, são grandes as chances de que você será interpretado. No entanto, alguns congressos também disponibilizam interpretação consecutiva para reuniões menores, bilaterais. Na interpretação consecutiva, o palestrante fala primeiro enquanto o intérprete toma nota, daí entrega o discurso em outro idioma imediatamente após o palestrante terminar.

Durante esse tipo de interpretação, o intérprete trabalha bastante com sua memória e as anotações servem como um corretor dessa memória. Isso quer dizer que há um limite para quando o armazenamento de memória estiver cheio.

Se quiser que sua mensagem chegue ao seu público com exatidão e com todos os detalhes, lembre-se que menos é mais. Tente não falar por mais do que cinco minutos a cada bloco. Os intérpretes conseguem trabalhar com discursos de até sete minutos, mas qualquer coisa mais longa que isso é quase como forçar um motor ladeira acima. Cinco minutos são ideiais.

Se não puder condensar sua fala em apenas cinco minutos, lembre-se que pode desmembrá-la em partes. Contanto que você dê ao intérprete a chance de te alcançar, tudo certo.

Desmembrar sua fala em partes menores pode inclusive ser bem visto pelos ouvintes, pois dá a eles mais tempo para processar a informação.

 

7. O fator humano

Se puder, diga um “oizinho” lá para seu intérprete. Adicione o fator humano e lembre-se que, no fim, eles fazem parte da sua equipe.

 


 

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